Todo mundo sabe que está usando IA para programar. Pouquíssima gente consegue explicar como essa IA influenciou o resultado final.
Esse gap me incomoda como professor de programação e como pesquisador em formação. E foi esse incômodo que me levou a construir algo para tentar resolvê-lo.
O problema que ninguém estava nomeando
Quando avalio um trabalho de aluno hoje, me deparo com uma pergunta cada vez mais difícil de responder: o que, aqui, é genuinamente do aluno?
Não estou fazendo um julgamento moral sobre o uso de IA, pelo contrário. O problema é que, sem visibilidade nenhuma sobre o processo, fica impossível dar um feedback útil, identificar onde o estudante ainda precisa crescer ou reconhecer quando ele teve uma sacada realmente criativa.
O mesmo vale para o meu próprio trabalho de pesquisa. Quando revisito decisões de arquitetura da minha tese, quero conseguir rastrear: essa escolha veio de uma sugestão do Copilot? Eu adaptei, ou segui cegamente? Hoje, sem nenhum registro, essa memória simplesmente se perde.
A IA virou um "atalho invisível" — presente em quase todo projeto, mas ausente de qualquer documentação.
A solução: tornar o processo visível
Para atacar esse problema, desenvolvi uma extensão para o VS Code que registra as interações com as principais ferramentas de IA usadas no desenvolvimento:
- GitHub Copilot
- Claude
- Codex
A extensão captura prompts e respostas e os salva em arquivos de log estruturados — projetados para serem commitados junto com o código no repositório do projeto.
Por que commitar os logs faz toda a diferença
Guardar os logs localmente seria apenas metade do caminho. Ao salvá-los no repositório, duas coisas mudam fundamentalmente:
Para a educação
O histórico de interações com a IA passa a ser um critério avaliativo legítimo. É possível analisar a jornada de aprendizado de um aluno: ele fez perguntas mais precisas ao longo do tempo? Soube questionar as sugestões da ferramenta? Usou a IA como andaime ou como muleta?
Para a pesquisa
Cria-se um registro auditável de como sugestões sintéticas influenciaram decisões de design. Isso tem valor tanto para a integridade do processo quanto para a análise posterior — inclusive para outros pesquisadores que queiram replicar ou criticar o trabalho.
O que um log se parece na prática
[
{
"timestamp": "2025-04-12T10:32:00.000Z",
"source": "claude",
"git_branch": "main",
"git_user_name": "Jane Doe",
"call_context": {
"cwd": "/Users/jane/projects/my-app"
},
"role": "user",
"content": "refactor the auth module to use JWT"
},
{
"timestamp": "2025-04-12T10:32:05.000Z",
"source": "claude",
"git_branch": "main",
"git_user_name": "Jane Doe",
"call_context": {
"cwd": "/Users/jane/projects/my-app"
},
"role": "assistant",
"content": "Here's the refactored auth module using JWT..."
}
]
Simples, legível, versionável. O suficiente para contar uma história.
O que isso muda, conceitualmente
A ideia central não é vigiar ninguém. É reconhecer que o processo de desenvolvimento com IA é parte do produto intelectual — e merece ser tratado como tal.
Da mesma forma que citamos referências em um artigo ou documentamos decisões de arquitetura em um ADR, faz sentido documentar como chegamos a certas soluções em colaboração com sistemas sintéticos.
Isso vale especialmente em contextos onde a autoria e o raciocínio importam: salas de aula, dissertações, projetos de código aberto, auditorias de software.
Próximos passos
A extensão está funcional e disponível publicamente. Ainda há muito espaço para evoluir - análise automática dos logs, dashboards de padrões de uso, integração com ambientes de avaliação.
Mas o núcleo já está lá: transformar a IA de caixa-preta em parte documentada e analisável do processo criativo.
Se você é professor, pesquisador, ou simplesmente alguém que quer entender melhor como está usando IA no seu trabalho, vale dar uma olhada.
